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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

BATEU LEVOU


Nelson Rodrigues e O Pasquim travaram um duelo ideológico durante a ditadura, mas a luta pela anistia os colocou do mesmo lado do front.

Elio Chaves Flores

Lançado em junho de 1969, no olho do furacão das tensões que varriam o Brasil e o mundo, o tablóide humorístico O Pasquim não poderia ter outro alvo preferencial para suas críticas que não os “brucutus” do governo militar.Bater na ditadura – embora com o evidente cuidado de driblar os censores – era quase uma obrigação.
E não havia do outro lado resposta à altura das ironias inteligentes de jornalistas e chargistas como Sérgio Cabral, Jaguar, Tarso de Castro, Ziraldo e Millôr Fernandes. Foi no front intelectual que eles encontraram um opositor com gabarito para enfrentá-los: o consagrado dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-1980).
Por seu temperamento genioso, irônico e anticomunista, o genial autor de “Vestido de Noiva” encarnava o representante máximo da execrável direita inteligente. Escolhido como símbolo reacionário, rapidamente entraria na mira do jornal alternativo. E não o deixaria sem resposta.Na verdade, não é possível saber que lado começou a contenda.
Desde o golpe militar de 1964, a tensão entre perseguidores e perseguidos estava presente não somente nos partidos políticos e sindicatos, mas também nos nichos da intelectualidade, especialmente nas universidades e na imprensa. Em 1968, Nelson Rodrigues publica uma sátira cruel à Passeata dos Cem Mil, a maior manifestação da década contra a ditadura militar.
Sob o rótulo de “esquerda festiva”, alfineta as classes médias que contestavam o regime: “Os Cem Mil eram filhos da alta burguesia. E, com efeito, não havia, entre os manifestantes, um preto, um favelado, um torcedor do Flamengo e sequer um desdentado. Os Cem Mil tinham uma saúde dentária de artista de cinema.
Um turista, que por aqui passasse e os visse, havia de perguntar: - Mas a alta burguesia quer tomar o poder que já tem?” Em outra crônica do mesmo ano, perguntaria pelas figuras obrigatórias nas manifestações populares que, segundo ele, não estavam presentes nem nas passeatas nem nas fotografias da revista Manchete: “os negros, o vendedor de laranjas, o batedor de carteira e a mãe plebéia, a santa crioula que tira o seio negro e generoso e dá de mamar ao crioulinho sôfrego”.
Em outubro de 1969, noventa dias depois de criado O Pasquim, o confronto já era aberto. “De vez em quando, vem alguém me dizer: O Pasquim te meteu o pau! Ora, não me considero uma glória oficial”, escreveu Nelson Rodrigues em uma crônica amargamente intitulada “Humoristas Rancorosos”.
Nela, o cronista propõe uma análise histórica sobre o humor nacional. “Sabemos que o brasileiro é o único povo que faz piada. Se não temos um vampiro, estejam certos:  é a piada que torna inviável qualquer Drácula brasileiro. No fundo, no fundo, a piada é um gesto de amor. É ou era. Mas os tempos passam e os usos, costumes, valores, sentimentos vão mudando”.
Ao comparar os humoristas da velha geração com as críticas esquerdistas de seu tempo, conclui, certeiro: “Há muitos anos que não acho graça nos humoristas brasileiros. Mas sempre achei que o defeito era meu. Só agora é que, acidentalmente, lendo O Pasquim, vejo que as coisas mudaram muito. Deixando de lado duas ou três exceções, faz-se, no Brasil, o humorismo do ressentimento”.
De fato, era um desafio preservar a leveza e a eficácia do humor nos anos de chumbo. Com a pauta das edições sempre no campo de lutas das esquerdas ou, pelo menos, com um forte sentimento de oposição à ditadura, os pasquinianos não cansavam de estimular a polêmica entre intelectuais. Suas entrevistas, realizadas ora em botecos, ora na redação, tornaram-se momentos de discussões acirradas sobre desafetos e ex-amigos.
Em maio de 1970, Chico Anísio, um dos astros do humorismo televisivo, respondeu assim quando lhe pediram sua opinião sobre Nelson Rodrigues: “É invejoso em primeiro lugar. (...) Tudo o que ele escreve, as coisas mais dramáticas, eu acho graça. Eu acho ele um tremendo humorista, embora ele pense que é um dramaturgo”.
Dois anos depois, o entrevistado seria o escritor Antonio Callado (1917-1997), autor de um dos romances referenciais sobre a luta armada: Quarup, de 1967. Callado havia sido amigo íntimo de Nelson Rodrigues, que o transformara em personagem de vários de seus escritos nos jornais. A amizade foi sepultada quando Nelson publicou a crônica “Adeus a um amigo socialista”.
No texto, indagava como um intelectual, com “um sorriso bem ensaiado, de uma compassiva ironia”, podia defender o assassinato de inocentes, isto é, que para os guerrilheiros fosse legítimo executar embaixadores. Não foi possível comprovar que Callado realmente tenha dito isso, mas com certeza Nelson generalizou uma idéia dele. Quando os entrevistadores de O Pasquim abordaram o tema, Callado afirmou que, na República, “as idéias são tidas como menos importantes que os amigos”. E emendou, ácido: “Nelson Rodrigues é o grande clássico das Forças Armadas”.
Entre as teses destiladas por Nelson, a que mais irritava Ziraldo, Jaguar e companhia era de que as esquerdas e os socialistas dominavam as redações dos jornais. Como acusações do gênero eram publicadas quase diariamente nas páginas de O Globo, suas crônicas eram vistas como um pedido para que a polícia prendesse jornalistas. Soava como dedurar colegas e profissionais da classe, “uma vocação legítima de pelego jornalístico” e “pau-mandado da direita”, nas palavras de O Pasquim.
As esquerdas também procuravam reduzir seus méritos artísticos, lançando mão de um discurso moralista: o dramaturgo era tachado de polêmico, maldito e tarado. Mas isso era como atirar na água. O próprio Nelson definia-se como um espectador privado e intimista dos costumes e obsessões da sociedade brasileira: “O buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico”.
Não escondia de ninguém que adorava uma polêmica, cultivando seus desafetos com todo esmero. Para isso, contava com um espaço privilegiado nas páginas dos principais jornais do Brasil, para os quais escrevia desde os 13 anos de idade. E foi entre 1967 e 1977 que mais se dedicou às crônicas, publicadas em três jornais (Jornal dos Sports, Correio da Manhã, O Globo), além de lançar livros de memórias e confissões.
Em contrapartida, escreveu apenas uma peça no período (“Anti-Nelson Rodrigues”, em 1973). Nas mais de sete mil crônicas que assinou, passava de temas relativamente amenos, como futebol, comportamento e relações amorosas, aos acirrados debates políticos e culturais da época, confrontando sedutoras novidades, como o poder jovem, o comunismo, o feminismo e as passeatas.
A batalha ideológica travada entre os intelectuais do humor mobilizou até os leitores do tablóide semanal. Na sessão “Cartas” da edição de janeiro de 1970, opiniões sentimentais davam densidade às polêmicas. “A intelectualidade pequeno-burguesa tem n’O Pasquim o seu órgão oficial e a coisa tende a se firmar como tal.
Com o tempo, O Pasquim irá não somente refletir normas, como também ditar normas, e isso é muito sério. É preciso que vocês saibam sempre o que estão fazendo e até onde devem ir. Devem procurar isolar também a intelectualidade festiva, que procura fazer do jornal um oásis de frescura”, provocou um leitor paulista. Outro, também de São Paulo, demonstrava desdém pelos dois lados contendores: “O sujo falando do mal lavado. Pior que o Nelson Rodrigues só O Pasquim. Pois se o que o sr. Nelson Rodrigues escreve não tem conteúdo, pelo menos escreve português certo por linhas tortas.
O Pasquim, além de apresentar aberrações em português, não tem conteúdo”. O difícil é saber se as cartas eram reais ou inventadas pela própria equipe do jornal.Em 1972, um drama pessoal colocou os pasquinianos e Nelson Rodrigues do mesmo lado da trincheira. Julgado por atos contra a Segurança Nacional, Nelson Rodrigues Filho foi condenado a mais de 70 anos de prisão.
Assim o cronista, que nunca escondera seu apoio ao regime, viu-se defendendo a anistia e amargou a pavorosa verdade de que seu nome e sangue, Nelsinho, fora torturado nos cárceres da ditadura. Em carta publicada no Jornal do Brasil em meados de 1979, Nelson Rodrigues dirigiu-se diretamente ao presidente da República, João Batista Figueiredo (1918-1999), num tom que misturava lirismo e cáustica ironia sobre a clandestinidade, a prisão e a tortura do filho, e pediu a anistia nestes termos: “Ora, um presidente não pode passar por um amanuense. Há uma anistia. Tem que ser uma anistia histórica. O que não é possível, presidente, é que seja uma anistia pela metade. Uma anistia que seja quase anistia. O senhor entende, presidente, que a terça parte de uma misericórdia, a décima parte de um perdão não tem sentido. Imagine o preso chegando à boca da cena para anunciar: – ‘Senhoras e senhores, comunico que fui quase anistiado’”.
Para O Pasquim, que era considerado o jornal dos presos políticos e exilados (muitas vezes entrevistados na prisão ou no exílio), a luta era diferente: anistia sim, mas não para os dois lados. Na segunda semana de setembro daquele ano, publicaram sua posição definitiva: “Um jornal a favor dos que são contra”. Na mesma edição, além de charges que denunciavam os rumos do projeto governamental, na sessão “Dicas”, Ziraldo apresentou uma concepção de anistia “Anti-Nelson Rodrigues”: “Anistia não é troca. Queremos anistia ampla, geral e irrestrita, mas não recíproca. Lutar por anistia, querer a anistia não é ter bom coração. É um ato político.
Quem mata nos cárceres pessoas indefesas e amarradas não pode ser anistiado”. A comparação dos dois textos deixa claro que, apesar de sua trágica situação, Nelson mantinha-se fiel ao tom irônico de suas crônicas. Enquanto isso, até críticas internas reconheciam que o jornal e seus articulistas, depois de dez anos, estavam se tornando muito sérios, pouco criativos e mesmo mal-humorados. Com a ditadura chegando ao fim, as coisas haviam mudado muito. Ficou a lição de que a História do Brasil tinha sido muito mais complexa do que as guerras humorísticas. Na verdade, tinha sido mais dolorosa, como se obedecesse a uma espécie de lógica do pior. Algo como sugeriu o filósofo Clément Rosset, citando Auguste Comte: “Sejamos felizes, tudo vai mal”.Elio Chaves Flores é professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e autor da tese “República às Avessas: narradores do cômico, cultura política e coisa pública no Brasil contemporâneo (1930-1993)”, UFF, 2002.
Saiba Mais - Bibliografia:
BRAGA, José Luiz. O Pasquim e os Anos 70: mais pra epa que pra oba. Brasília: Editora UnB, 1991.
CASTRO, Rui. O Anjo Pornográfico: a vida de Nelson Rodrigues. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.KUCINSKI, Bernardo. Jornalistas e Revolucionários: nos tempos da imprensa alternativa. São Paulo: Edusp, 2003.
RODRIGUES, Nelson. O Reacionário: memórias e confissões. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.


quinta-feira, 17 de setembro de 2009

AS AÇÕES CRIMINOSAS DA REVISTA VEJA


8 de setembro de 2009
Por Altamiro Borges*
Os editores da revista Veja são de um cinismo depravado. Na edição desta semana, este panfleto da direita colonizada estampou mais uma capa com ataques ao MST. A manchete provocadora: Abrimos o cofre do M$T. A foto montagem: um boné da organização com dólares e reais. A chamada: “Como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra desvia dinheiro público e verbas estrangeiras para cometer seus crimes”.
Na “reporcagem” interna, nenhuma entrevista com lideranças dos sem-terra e nenhuma visita às escolas e assentamentos produtivos do MST. Como arapongas ilegais, ela se jacta de que “teve acesso às movimentações bancárias de quatro entidades ligadas aos sem-terra. Elas revelam como o governo e organizações internacionais acabam financiando as atividades criminosas do movimento”.
As quatro entidades – Associação Nacional de Cooperação Agrícola (Anca), Confederação das Cooperativas de Reforma Agrária (Concrab), Centro de Formação e Pesquisas Contestado (Cepatec) e Instituto Técnico de Estudos Agrários e Cooperativismo (Itac) – “receberam 43 milhões de reais em convênios com o governo entre 2003 e 2007”, resmunga a revista da Editora Abril, que sempre saqueou os cofres públicos.
Uma “reporcagem” interesseira
O novo ataque ao MST não é gratuito. Ele ocorre poucos dias após a jornada nacional de luta por mais verbas para a reforma agrária e pela atualização dos índices de produtividade, usados como parâmetros legais para a desapropriação de terras. Diante da sinalização do governo Lula de que atenderia as justas reivindicações, a revista Veja resolveu sair em defesa dos latifundiários e dos barões do agronegócio. Não há nenhuma investigação jornalística sobre as premiadas iniciativas educativas e sociais do MST. Apenas opiniões preconceituosas para criminalizar o movimento. Seu objetivo é asfixiar financeiramente o MST, fragilizando a heróica luta pela reforma agrária.
Daí a “reporcagem” esbravejar, num tom fascistóide, que “o MST é movido por dinheiro, muito dinheiro, captado basicamente dos cofres públicos e junto às entidades internacionais. Ao ocupar ministérios, invadir fazendas, patrocinar um confronto com a polícia, o MST o faz com dinheiro de impostos pagos pelos brasileiros e com o auxílio de estrangeiros que não deveriam se imiscuir em assuntos do país”. A matéria também serve de palanque para o tucano José Serra. “Aliados históricos do PT, os sem-terra encontraram no governo Lula uma fonte inesgotável de recursos para subsidiar suas atividades”. E ainda estimula intrigas. “O governo Lula agora experimenta o gosto da chantagem de uma organização bandida que cresceu sob seus auspícios”.
Resposta corajosa do MST
O MST já respondeu com altivez às provocações. “Não há nenhuma novidade na postura política e ideológica desses veículos, que fazem parte da classe dominante e defendem os interesses do capital financeiro, dos bancos, do agronegócio e do latifúndio, virando de costas para os problemas estruturais da sociedade e para as dificuldades do povo brasileiro. Desesperados, tentam requentar velhas teses de que o movimento vive à custa de dinheiro público. Aliás, esses ataques vêm justamente de empresas que vivem de propaganda e de recursos públicos ou que são suspeitas de benefícios em licitações do governo de São Paulo, como a Editora Abril”.
Quanto aos ataques, a nota é elucidativa. “Em relação às entidades que atuam nos assentamentos de reforma agrária, que são centenas trabalhando em todo o país, defendemos a legitimidade dos convênios com os governos federal e estaduais e acreditamos na lisura do trabalho realizado. Essas entidades estão devidamente habilitadas nos órgãos públicos, são fiscalizadas e, inclusive, sofrem perseguições políticas do TCU (Tribunal de Contas da União), controlado atualmente por filiados do PSDB e DEM. Elas desenvolvem projetos de assistência técnica, alfabetização de adultos, capacitação, educação e saúde em assentamentos rurais, que são um direito dos assentados e um dever do Estado, de acordo com a Constituição”.
Um negócio de 719 milhões de reais
Em mais este ataque colérico, a revista Veja prova que é imoral e cínica. Tudo que publica serve a objetivos políticos precisos, mas embalados na manipulação jornalística. De fato, muita coisa precisa ser investigada no país. Uma Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a mídia tornou-se uma urgência. No caso da Editora Abril, que condena o “auxílio de estrangeiros que se imiscuem em assuntos do país”, seria útil averiguar sua própria origem, quando o empresário estadunidense Victor Civita se mudou para São Paulo, em 1949, trazendo na bagagem um sinistro acordo com a Disney. Não é para menos que muitos o acusaram de “agente do império” e de servidor da CIA.
Quanto aos recursos públicos, seria necessário apurar as compras milionárias do governo tucano de José Serra das publicações da Abril. O Ministério Público Federal inclusive já abriu processo para investigar o caso suspeito. No embalo, poderia averiguar as recentes denúncias do jornalista Carlos Lopes, editor do jornal Hora do Povo. No artigo intitulado O assalto do grupo Abril aos cofres públicos na venda de livros do MEC, com base em dados do Portal da Transparência, ele mostra que “nos últimos cinco anos, o Ministério da Educação repassou ao grupo Abril a quantia de R$ 719.630.139,55 para compra de livros didáticos. Foi o maior repasse de recursos públicos destinados a livros didáticos dentre todos os grupos editoriais do país”.
A urgência da CPI da mídia
“Nenhum outro recebeu, nesse período, tanto dinheiro do MEC. Desde 2004, o grupo da Veja ficou com mais de um quinto dos recursos (22,45%) do MEC para compra de livros didáticos... O espantoso é que até 2004 o grupo Civita não atuava no setor de livros didáticos. Neste ano, o grupo adquiriu duas editoras – a Ática e a Scipione. Por que essa súbita decisão de passar a explorar os cofres públicos com uma inundação de livros didáticos? Evidentemente, porque existe muito dinheiro nos cofres públicos... O MEC, infelizmente, está adotando uma política de fornecer dinheiro público para que o Civita sustente o seu panfleto – a revista Veja”.
“Exatamente essa malta, cínica e pendurada no dinheiro público, acusa o MST de ter recebido, de 2003 a 2007, R$ 47 milhões em alguns convênios com o governo federal... Já o Civita recebeu só do MEC, entre 2004 e 2008, R$ 719 milhões, isto é, 17 vezes mais do que o MST – e não foi para trabalhar, mas para empurrar livros didáticos duvidosos, e a preço de ouro”, critica Carlos Lopes. Como se observa, uma CPI da mídia é urgente.
*Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB. (Texto publicado originalmente no Portal Vermelho)

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

QUEM FOI JEAN PIAGET ?


Jean Piaget nasceu em Neuchâtel Suíça, e viveu de (1896-1980), foi o nome mais influente no campo da Educação durante a segunda metade do século 20, a ponto de quase se tornar sinônimo de pedagogia. Não existe, entretanto, um método Piaget, como ele próprio gostava de frisar. Ele nunca trabalhou como pedagogo. Antes de mais nada, Piaget foi biólogo e dedicou a vida a submeter à observação científica rigorosa o processo de aquisição do conhecimento pelo ser humano, particularmente a criança.

Do estudo das noções infantis de tempo, espaço, causalidade física, movimento e velocidade, Piaget criou um campo de investigação que denominou como conhecimento genético, isto é, uma teoria do conhecimento centrada no desenvolvimento natural da criança. Segundo ele, o pensamento infantil passa por quatro estágios, desde o nascimento até o início da adolecência, quando a capacidade plena de raciocínio é atingida

As descobertas de Piaget tiveram grande impacto na pedagogia, mas, de certa maneira, demonstraram que a transmissão de conhecimentos é uma possibilidade limitada. Por um lado, não se pode fazer uma criança aprender aquilo que ela não tem condições de absorver. Por outro, mesmo tendo essas condições, não vai interessar-se pelo conhecimento, a não ser que tenha vinculo com a sua realidade.

Isso porque, para o cientista suíço, o conhecimento se dá por descobertas que a própria criança faz, um mecanismo que outros pensadores já haviam imaginado, mas ele testou essas ideias na prática. Vem de Piaget a ideia de que o aprendizado é construído pelo aluno. Educar, para Piaget, é "provocar a atividade", isto é, estimular a procura do conhecimento.

ASSIMILAÇÃO E ACOMODAÇÃO: Com Piaget, ficou claro que as crianças não raciocinam como os adultos e apenas gradualmente se inserem nas regras, valores e símbolos. Esse processo se dá mediante a dois mecanismos: assimilação e acomodação.

O primeiro consiste em incorporar objetos do mundo exterior a esquemas mentais que já existem. Por exemplo: a criança que tem a ideia mental de uma ave como animal voador, com penas e asas, ao observar um avestruz vai tentar assimilá-lo a um esquema que não corresponde totalmente ao conhecido. Já a acomodação se refere a modificação dos sistemas de assimilação por influência do mundo externo. Assim, depois de aprender que um avestruz não voa, a criança vai adaptar seu conhecimento "geral" de ave para incluir as que não voam.

ESTÁGIOS DE DESENVOLVIMENTO: Um conceito essencial do conhecimento genético é o egocêntrismo, que explica o caráter mágico e pré-lógico do raciocínio infantil. A maturação do pensamento rumo ao domínio da lógica consiste no abandono gradual do egocêntrismo. Com isso se adquire a noção de responsabilidade individual, indispensável para a autonomia moral da criança.

Segundo Piaget, há quatro estágios básicos para do desenvovimento cognitivo. O primeiro é o estágio sensório-motor, que vai até os 2 anos. Nessa fase, as crianças adquirem a capacidade de administrar seus reflexos básicos para que gerem ações prazerosas ou vantajosas. É um período anterior a linguagem, no qual o bebê desenvolve a percepção de si mesmo e dos objetos a sua volta.

O estágio pré-operacional vai dos 2 aos 7 e se caracteriza pelo surgimento da capacidade de dominar a linguagem e a representação do mundo por meio de símbolos. A criança continua egocêntrica e ainda não é capaz, moralmente, de se colocar no lugar de outra pessoa.

O estágio das operações concretas, dos 7 aos 11 ou 12 anos, tem como marca a aquisição da noção de reversibilidade das ações. Surge a lógica nos processos mentais e a habilidade de diferenciar objetos por semelhanças e diferenças. A criança já pode dominar conceitos de tempo e número.

Por volta do 12 anos começa o estágio das operações formais. Essa fase marca a entrada na idade adulta, em termos cognitivos. O adolecente passa a ter o domínio do pensamento lógico e dedutivo, o que o habilita à experimentação mental. Isso implica, entre outras coisas, relacionar conceitos abstratos e raciocinar sobre hipóteses.

FONTE: Revista nova escola, edição especial, número 25.