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quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Quem tem boca vai à forca


Tiradentes era um orador incansável: dos prostíbulos às pousadas de beira de estrada, fez da palavra sua grande arma. Que ele arrancava dentes, é fácil de se imaginar. Mas a habilidade de Joaquim José da Silva Xavier que realmente causava arrepios nas autoridades portuguesas era outra: ele falava pelos cotovelos. E falava bem.
Antes de se tornar o “mártir da Independência”, Tiradentes foi um exímio comunicador: persuasivo, incansável e – talvez seu traço mais relevante – sem preconceito de público. Onde houvesse concentração de gente e pontos de encontro propícios à conversa, lá estava ele.
Em 1789, João Rodrigues, dono de uma estalagem em Varginha, no caminho que ligava os centros mineradores ao Rio de Janeiro, foi chamado a prestar depoimento no inquérito sobre a Inconfidência Mineira. Motivo: tempos antes ele hospedara o alferes Silva Xavier. A hospedagem em si não lhe teria causado maiores problemas, se o famigerado falastrão não tivesse começado a expor, de modo exaltado, seu descontentamento político.
O estalajadeiro contou aos juízes uma conversa que tivera com outro hóspede após a passagem de Tiradentes: “Vossa Mercê não sabe que há por cá valentões que se querem levantar com a terra? [...] Era um semiclérigo”. O termo usado pelo depoente não era apenas irônico, mas altamente simbólico. Ao desvendar o lado “semiclérigo” de Tiradentes, ele não só confirma que seu hóspede falava demais (como um padre em pregação), como deixa claro que o hábito de falar em tom de convencimento estava ligado à atuação dos representantes da Igreja.
Tanto a tradição lusitana quanto a história da capitania do ouro comprovam o desempenho de religiosos na fomentação de motins junto à gente miúda, como na Restauração Portuguesa de 1640, quando Portugal se separou da Espanha após 60 anos da União Ibérica, e nos Furores Sertanejos de 1736, uma série de motins deflagrados contra a cobrança do imposto da capitação, no norte de Minas. Nessas ocasiões, os padres foram duplamente importantes: souberam alimentar o debate com discursos de convencimento e ajudaram a transportar as insatisfações populares (geralmente limitadas ao âmbito oral) para o contexto da escrita.
Na sociedade colonial, os relacionamentos eram marcados pela oralidade. A troca de idéias, as polêmicas e as críticas ao governo ocorriam basicamente em conversas, que se tornavam públicas por meio de boatos e murmúrios. Nesses momentos, os religiosos, acostumados ao púlpito, lançavam mão de sua oratória. E Tiradentes, ao agir como um “semiclérigo”, ecoava seu discurso com a mesma eficácia.
Tiradentes trafegava com desenvoltura pelo submundo da Colônia, em ambientes especialmente favoráveis à divulgação de propostas ousadas. Tavernas e prostíbulos eram os locais por excelência para tramas envolvendo fugas de escravos, negociatas ilícitas e ações subversivas. Afinal, ali se reuniam todas as gentes: homens brancos, escravos, libertos, vadios e militares, principalmente os de baixa patente.
No inquérito da Inconfidência Mineira, uma testemunha afirmou ser público que o alferes “andava falando por tavernas e quartéis”. Outra, que ele “pretendia excitar uma sedição e motim nesta capitania, chegando o seu desaforo a andar convidando sócios até pelas tavernas”. Uma terceira, que andara “por casa de várias meretrizes, a prometer prêmios para o futuro, quando se formasse nesta terra uma república”.
Três meretrizes a quem Tiradentes teria feito promessas chegaram a depor no inquérito. Eram mãe e duas filhas, identificadas, preconceituosamente, como “pilatas” – segundo o historiador Tarquínio J. B. de Oliveira, o termo remetia a pia de água benta, “onde todos botam a mão”. As mulheres pediram a Joaquim José que ajudasse um irmão das duas meninas a “sentar praça de soldado na tropa paga”. O conjurado teria lhes respondido que “deixassem estar, que brevemente se lhe assentaria praça, porque ele, dito alferes, estava para ser um grande homem”.
Mas a “pregação” de Tiradentes não se limitou ao submundo. Transitava pelas ruas de Vila Rica (atual Ouro Preto), visitava residências de sujeitos proeminentes e repartições públicas. Freqüentou, especialmente, o primeiro piso da residência de João Rodrigues de Macedo, onde funcionava um cartório. Macedo era um poderoso comerciante e arrecadador de impostos. Por sua casa passava diariamente um grande número de pessoas, por conta de pendências fiscais ou para o acerto de taxas do comércio.
Era a mais imponente construção civil da cidade, um ponto de encontro e comunicação que atraía grandes comerciantes, mineradores e “homens bons” da região. Tudo indica que naquela casa ocorreram encontros secretos entre alguns inconfidentes. Mas muitos tópicos da opinião pública eram também discutidos às claras, sem nenhuma reserva ou sigilo, e por pessoas alheias ao movimento rebelde.
O valor da derrama (cobrança de impostos atrasados relativos à exploração do ouro) circulou de boca em boca por meio dos cálculos de Vicente Vieira da Mota, funcionário do cartório. Grande parte das informações dadas pelo tenente-coronel Basílio de Brito Malheiro, um dos denunciantes da conjuração, foi recolhida no local. E Tiradentes pronunciou ali alguns de seus discursos políticos para quem quisesse ouvir.A complexidade do espaço urbano de Minas era suficientemente grande para criar diferenciações simbólicas entre os lugares de convivência.
Isto fica claro em relação a tavernas e prostíbulos, sobre os quais pairava o estereótipo: seus freqüentadores eram tidos como pessoas de menor qualidade, desregradas ou criminosas. E enquanto a casa do cartório reunia homens poderosos e benquistos pela sociedade, a ponte que a margeia era vista com reserva. Para Basílio de Brito Malheiro, as pessoas que ali conversavam não possuíam boas qualidades, “porque na dita ponte não costumava ajuntar-se gente séria”.
Tiradentes alugava casa próxima aos dois pontos de encontro.Andou também pelos pousos e estradas do Caminho do Rio (ou Caminho Novo). Este trajeto, que ligava as vilas mineiras ao litoral carioca, dois dos principais pólos econômicos da América portuguesa, era a rota terrestre mais transitada da Colônia. Notícias e informações circulavam por seus caminhos, refazendo o amplo circuito de comunicação dos viandantes.
Tão logo soube das desordens em Minas, o vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa advertiu para o perigo de que, “pela vizinhança e relação contínua de comércio, se possa comunicar [de Minas para o Rio] este tão grande mal”. As palavras de Tiradentes parecem ter sido ali transmitidas e retransmitidas como tentáculos. A impressão que se tem pela leitura do processo contra os inconfidentes é que seria impossível uma só pessoa ter conversado tanto tempo, com tantos interlocutores, em tantos lugares diferentes.
São pousos, fazendas, estalagens, ranchos de abrigo do sol, registros fiscais e muitos outros locais a servir de cenário para as confabulações do alferes. Uma testemunha afirmou ter ouvido dizer que o militar “havia falado a quase todos os moradores da estrada do Rio de Janeiro, como era constante”. Outro contemporâneo soube que Tiradentes, enquanto viajava para a capital da Colônia, “tomou a sua conta ir semeando alguns discursos suasórios [persuasivos] das conveniências deste país”. O alferes comunicava publicamente suas indignações e sua inquietação, “alargando-se e convidando algumas pessoas, a quem persuadia dos seus intentos, e a quem se encaminhavam aqueles discursos”.
Essas práticas motivaram intensos burburinhos. Uma voz pública passou a veicular “as notícias gerais das liberdades e despropósitos que o mencionado alferes viera espalhando desde o Rio de Janeiro – onde tinha residido por largos tempos – por toda a estrada”. A elaboração anônima dos boatos se encarregou de fazer chegar suas mensagens a lugares por onde ele não conseguira passar. Um “ouvir dizer” irrefreável espalhou-se pelos caminhos.Às margens das estradas, as estalagens e pousadas constituíam um meio-termo entre os ambientes rurais e urbanos da Colônia. Viviam da pujança comercial que interligava as regiões do Brasil, abrigando toda sorte de gente. Tropeiros, caixeiros e negociantes constituíam a clientela principal, mas nelas também pernoitavam pessoas alheias ao comércio: funcionários públicos, fazendeiros, mineradores, militares ou simples viandantes.
Pobres e ricos se esbarravam no mesmo estabelecimento, embora o preço da estada e da alimentação fosse sacrificante para os primeiros. Sabe-se que em uma de suas viagens Tiradentes esteve acompanhado de Antônio de Oliveira Lopes, um paupérrimo medidor de terras que não podia pagar sua própria hospedagem. Joaquim José supria as contas do companheiro, bebendo com ele um cálice de vinho ou aguardente e aproveitando a ocasião para praguejar contra a miséria de Minas e a ladroagem dos governadores. Na mesma estalagem hospedava-se ainda um moço do Serro não identificado, miserável e “muito mal tratado, porque conduzia um saco às costas e vinha descalço”.
Na cidade ou na estrada, no submundo ou entre os poderosos, a trajetória de Tiradentes está intimamente ligada à força da oralidade na sociedade colonial. O que nos coloca diante de uma questão atualíssima: ainda hoje uma nação constituída, em grande parte, de analfabetos ou semi-analfabetos, o Brasil continua a ter sua história construída por meio de falas e murmúrios. Para melhor nos enxergarmos como nação, convém apurar os ouvidos.

Tarcísio de Souza Gaspar é professor substituto da Universidade Federal de Viçosa, historiador da Prefeitura Municipal de Ouro Preto e autor da dissertação “Palavras no chão: murmurações e vozes em Minas Gerais no século XVIII” (Rio de Janeiro: UFF, 2008).

Saiba Mais - Bibliografia:
FURTADO, João Pinto. O manto de Penélope – história, mito e memória da Inconfidência Mineira de 1788-9. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
NEVES, Guilherme Pereira das. “Murmuração”. In: Ronaldo Vainfas (dir). Dicionário do Brasil Colonial (1500-1808). Rio de Janeiro: Objetiva, 2001; p. 416-7.
RAMOS, Donald. “A voz popular e a cultura popular no Brasil do século XVIIII”. In: Maria Beatriz Nizza da Silva (org.) Cultura Portuguesa na Terra de Santa Cruz. Lisboa: Estampa, 1995, p. 137-155.
SOUZA, Laura de Mello e. Norma e Conflito: aspectos da história mineira no século XVIII. Belo Horizonte: UFMG, 2006.


A religião dos bichos


Desde a Idade da Pedra, os animais são vistos como mensageiros de seres divinos.

Não é de hoje que os animais são domesticados. Esta prática começou no período Neolítico, há cerca de 10 mil anos, e fez parte do que os historiadores e arqueólogos costumam chamar de “Revolução Neolítica”, que viu surgir a agricultura e a vida sedentária.
Mas o início da submissão de alguns animais aos homens não estava relacionado a fatores econômicos desse período: alimentação e trabalho. É provável que tenha atendido a fins sobrenaturais. A morte ritualística, comum em várias sociedades pré-históricas, requeria uma quantidade regular de animais, só possível com o seu amansamento.
Antes da domesticação, entretanto, os homens já atribuíam significados sobrenaturais aos bichos. Pinturas rupestres datadas do Paleolítico Superior (entre 300.000 e 10.000 a.C.) na Europa retratam bisões, mamutes e renas com tal perfeição que se pode especular sobre a existência de indivíduos especializados nessa tarefa.
Seus autores possivelmente eram sacerdotes afastados das tarefas de caça e coleta, o que indica a importância dada pela comunidade aos humanos que faziam esses desenhos com fins mágicos. Na região da atual Alemanha, há pouco mais de 10 mil anos, comunidades de caçadores que seguiam manadas de renas sacrificavam o primeiro animal que capturavam em cada temporada, atirando em um lago seu corpo amarrado a uma pedra.
Portanto, matavam animais com objetivos rituais. Várias culturas próximas a nós, modernas ou antigas, enfatizam o caráter sagrado dos não humanos. O cristianismo, dentro da tradição judaica, submete os animais ao homem desde a Criação – Adão, ainda no Éden, deu nome a cada uma das espécies feitas por Deus, sublinhando assim o controle humano sobre as bestas.
O próprio filho do Criador, encarnado para os cristãos em Jesus, vem ao mundo para morrer em uma oblação, como “Cordeiro de Deus”. Aliás, o carneiro, animal domesticado há cerca de 10 mil anos no atual Iraque, tem papel importante nas culturas do Oriente Médio.
Entre as funções atribuídas aos animais, uma das mais persistentes é a de mediação entre o mundo dos vivos e o dos mortos. No Egito Antigo, Anúbis, o deus da morte, era representado por um híbrido de homem e cão.
O touro Ápis, um dos animais mais reverenciados entre os egípcios, era considerado um semideus, vivia em um santuário, onde era bajulado pelos sacerdotes e enfeitado com joias. Quando morria, passava por um processo de mumificação que durava cerca de 70 dias e era acompanhado por uma multidão em prantos até o seu sepultamento. No primeiro milênio a.C., as oferendas de cães, gatos, falcões e outros animais mumificados aos deuses se tornaram muito populares no Egito, como forma de comunicação com o mundo dos mortos. (...)


quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

BATEU LEVOU


Nelson Rodrigues e O Pasquim travaram um duelo ideológico durante a ditadura, mas a luta pela anistia os colocou do mesmo lado do front.

Elio Chaves Flores

Lançado em junho de 1969, no olho do furacão das tensões que varriam o Brasil e o mundo, o tablóide humorístico O Pasquim não poderia ter outro alvo preferencial para suas críticas que não os “brucutus” do governo militar.Bater na ditadura – embora com o evidente cuidado de driblar os censores – era quase uma obrigação.
E não havia do outro lado resposta à altura das ironias inteligentes de jornalistas e chargistas como Sérgio Cabral, Jaguar, Tarso de Castro, Ziraldo e Millôr Fernandes. Foi no front intelectual que eles encontraram um opositor com gabarito para enfrentá-los: o consagrado dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-1980).
Por seu temperamento genioso, irônico e anticomunista, o genial autor de “Vestido de Noiva” encarnava o representante máximo da execrável direita inteligente. Escolhido como símbolo reacionário, rapidamente entraria na mira do jornal alternativo. E não o deixaria sem resposta.Na verdade, não é possível saber que lado começou a contenda.
Desde o golpe militar de 1964, a tensão entre perseguidores e perseguidos estava presente não somente nos partidos políticos e sindicatos, mas também nos nichos da intelectualidade, especialmente nas universidades e na imprensa. Em 1968, Nelson Rodrigues publica uma sátira cruel à Passeata dos Cem Mil, a maior manifestação da década contra a ditadura militar.
Sob o rótulo de “esquerda festiva”, alfineta as classes médias que contestavam o regime: “Os Cem Mil eram filhos da alta burguesia. E, com efeito, não havia, entre os manifestantes, um preto, um favelado, um torcedor do Flamengo e sequer um desdentado. Os Cem Mil tinham uma saúde dentária de artista de cinema.
Um turista, que por aqui passasse e os visse, havia de perguntar: - Mas a alta burguesia quer tomar o poder que já tem?” Em outra crônica do mesmo ano, perguntaria pelas figuras obrigatórias nas manifestações populares que, segundo ele, não estavam presentes nem nas passeatas nem nas fotografias da revista Manchete: “os negros, o vendedor de laranjas, o batedor de carteira e a mãe plebéia, a santa crioula que tira o seio negro e generoso e dá de mamar ao crioulinho sôfrego”.
Em outubro de 1969, noventa dias depois de criado O Pasquim, o confronto já era aberto. “De vez em quando, vem alguém me dizer: O Pasquim te meteu o pau! Ora, não me considero uma glória oficial”, escreveu Nelson Rodrigues em uma crônica amargamente intitulada “Humoristas Rancorosos”.
Nela, o cronista propõe uma análise histórica sobre o humor nacional. “Sabemos que o brasileiro é o único povo que faz piada. Se não temos um vampiro, estejam certos:  é a piada que torna inviável qualquer Drácula brasileiro. No fundo, no fundo, a piada é um gesto de amor. É ou era. Mas os tempos passam e os usos, costumes, valores, sentimentos vão mudando”.
Ao comparar os humoristas da velha geração com as críticas esquerdistas de seu tempo, conclui, certeiro: “Há muitos anos que não acho graça nos humoristas brasileiros. Mas sempre achei que o defeito era meu. Só agora é que, acidentalmente, lendo O Pasquim, vejo que as coisas mudaram muito. Deixando de lado duas ou três exceções, faz-se, no Brasil, o humorismo do ressentimento”.
De fato, era um desafio preservar a leveza e a eficácia do humor nos anos de chumbo. Com a pauta das edições sempre no campo de lutas das esquerdas ou, pelo menos, com um forte sentimento de oposição à ditadura, os pasquinianos não cansavam de estimular a polêmica entre intelectuais. Suas entrevistas, realizadas ora em botecos, ora na redação, tornaram-se momentos de discussões acirradas sobre desafetos e ex-amigos.
Em maio de 1970, Chico Anísio, um dos astros do humorismo televisivo, respondeu assim quando lhe pediram sua opinião sobre Nelson Rodrigues: “É invejoso em primeiro lugar. (...) Tudo o que ele escreve, as coisas mais dramáticas, eu acho graça. Eu acho ele um tremendo humorista, embora ele pense que é um dramaturgo”.
Dois anos depois, o entrevistado seria o escritor Antonio Callado (1917-1997), autor de um dos romances referenciais sobre a luta armada: Quarup, de 1967. Callado havia sido amigo íntimo de Nelson Rodrigues, que o transformara em personagem de vários de seus escritos nos jornais. A amizade foi sepultada quando Nelson publicou a crônica “Adeus a um amigo socialista”.
No texto, indagava como um intelectual, com “um sorriso bem ensaiado, de uma compassiva ironia”, podia defender o assassinato de inocentes, isto é, que para os guerrilheiros fosse legítimo executar embaixadores. Não foi possível comprovar que Callado realmente tenha dito isso, mas com certeza Nelson generalizou uma idéia dele. Quando os entrevistadores de O Pasquim abordaram o tema, Callado afirmou que, na República, “as idéias são tidas como menos importantes que os amigos”. E emendou, ácido: “Nelson Rodrigues é o grande clássico das Forças Armadas”.
Entre as teses destiladas por Nelson, a que mais irritava Ziraldo, Jaguar e companhia era de que as esquerdas e os socialistas dominavam as redações dos jornais. Como acusações do gênero eram publicadas quase diariamente nas páginas de O Globo, suas crônicas eram vistas como um pedido para que a polícia prendesse jornalistas. Soava como dedurar colegas e profissionais da classe, “uma vocação legítima de pelego jornalístico” e “pau-mandado da direita”, nas palavras de O Pasquim.
As esquerdas também procuravam reduzir seus méritos artísticos, lançando mão de um discurso moralista: o dramaturgo era tachado de polêmico, maldito e tarado. Mas isso era como atirar na água. O próprio Nelson definia-se como um espectador privado e intimista dos costumes e obsessões da sociedade brasileira: “O buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico”.
Não escondia de ninguém que adorava uma polêmica, cultivando seus desafetos com todo esmero. Para isso, contava com um espaço privilegiado nas páginas dos principais jornais do Brasil, para os quais escrevia desde os 13 anos de idade. E foi entre 1967 e 1977 que mais se dedicou às crônicas, publicadas em três jornais (Jornal dos Sports, Correio da Manhã, O Globo), além de lançar livros de memórias e confissões.
Em contrapartida, escreveu apenas uma peça no período (“Anti-Nelson Rodrigues”, em 1973). Nas mais de sete mil crônicas que assinou, passava de temas relativamente amenos, como futebol, comportamento e relações amorosas, aos acirrados debates políticos e culturais da época, confrontando sedutoras novidades, como o poder jovem, o comunismo, o feminismo e as passeatas.
A batalha ideológica travada entre os intelectuais do humor mobilizou até os leitores do tablóide semanal. Na sessão “Cartas” da edição de janeiro de 1970, opiniões sentimentais davam densidade às polêmicas. “A intelectualidade pequeno-burguesa tem n’O Pasquim o seu órgão oficial e a coisa tende a se firmar como tal.
Com o tempo, O Pasquim irá não somente refletir normas, como também ditar normas, e isso é muito sério. É preciso que vocês saibam sempre o que estão fazendo e até onde devem ir. Devem procurar isolar também a intelectualidade festiva, que procura fazer do jornal um oásis de frescura”, provocou um leitor paulista. Outro, também de São Paulo, demonstrava desdém pelos dois lados contendores: “O sujo falando do mal lavado. Pior que o Nelson Rodrigues só O Pasquim. Pois se o que o sr. Nelson Rodrigues escreve não tem conteúdo, pelo menos escreve português certo por linhas tortas.
O Pasquim, além de apresentar aberrações em português, não tem conteúdo”. O difícil é saber se as cartas eram reais ou inventadas pela própria equipe do jornal.Em 1972, um drama pessoal colocou os pasquinianos e Nelson Rodrigues do mesmo lado da trincheira. Julgado por atos contra a Segurança Nacional, Nelson Rodrigues Filho foi condenado a mais de 70 anos de prisão.
Assim o cronista, que nunca escondera seu apoio ao regime, viu-se defendendo a anistia e amargou a pavorosa verdade de que seu nome e sangue, Nelsinho, fora torturado nos cárceres da ditadura. Em carta publicada no Jornal do Brasil em meados de 1979, Nelson Rodrigues dirigiu-se diretamente ao presidente da República, João Batista Figueiredo (1918-1999), num tom que misturava lirismo e cáustica ironia sobre a clandestinidade, a prisão e a tortura do filho, e pediu a anistia nestes termos: “Ora, um presidente não pode passar por um amanuense. Há uma anistia. Tem que ser uma anistia histórica. O que não é possível, presidente, é que seja uma anistia pela metade. Uma anistia que seja quase anistia. O senhor entende, presidente, que a terça parte de uma misericórdia, a décima parte de um perdão não tem sentido. Imagine o preso chegando à boca da cena para anunciar: – ‘Senhoras e senhores, comunico que fui quase anistiado’”.
Para O Pasquim, que era considerado o jornal dos presos políticos e exilados (muitas vezes entrevistados na prisão ou no exílio), a luta era diferente: anistia sim, mas não para os dois lados. Na segunda semana de setembro daquele ano, publicaram sua posição definitiva: “Um jornal a favor dos que são contra”. Na mesma edição, além de charges que denunciavam os rumos do projeto governamental, na sessão “Dicas”, Ziraldo apresentou uma concepção de anistia “Anti-Nelson Rodrigues”: “Anistia não é troca. Queremos anistia ampla, geral e irrestrita, mas não recíproca. Lutar por anistia, querer a anistia não é ter bom coração. É um ato político.
Quem mata nos cárceres pessoas indefesas e amarradas não pode ser anistiado”. A comparação dos dois textos deixa claro que, apesar de sua trágica situação, Nelson mantinha-se fiel ao tom irônico de suas crônicas. Enquanto isso, até críticas internas reconheciam que o jornal e seus articulistas, depois de dez anos, estavam se tornando muito sérios, pouco criativos e mesmo mal-humorados. Com a ditadura chegando ao fim, as coisas haviam mudado muito. Ficou a lição de que a História do Brasil tinha sido muito mais complexa do que as guerras humorísticas. Na verdade, tinha sido mais dolorosa, como se obedecesse a uma espécie de lógica do pior. Algo como sugeriu o filósofo Clément Rosset, citando Auguste Comte: “Sejamos felizes, tudo vai mal”.Elio Chaves Flores é professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e autor da tese “República às Avessas: narradores do cômico, cultura política e coisa pública no Brasil contemporâneo (1930-1993)”, UFF, 2002.
Saiba Mais - Bibliografia:
BRAGA, José Luiz. O Pasquim e os Anos 70: mais pra epa que pra oba. Brasília: Editora UnB, 1991.
CASTRO, Rui. O Anjo Pornográfico: a vida de Nelson Rodrigues. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.KUCINSKI, Bernardo. Jornalistas e Revolucionários: nos tempos da imprensa alternativa. São Paulo: Edusp, 2003.
RODRIGUES, Nelson. O Reacionário: memórias e confissões. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.


Mudanças climáticas colocam em perigo tesouros arqueológicos



PARIS (AFP) - A desertificação, o degelo, o aumento das chuvas torrenciais e dos furacões como consequência das mudanças climáticas podem destruir diversos tesouros arqueológicos, como templos maias, alertaram especialistas.


Múmias decompostas na Sibéria, pirâmides enterradas na areia no Sudão, templos maias que implodem: as mudanças climáticas podem destruir vários tesouros arqueológicos, mas também podem revelar novas decobertas, como "Oetzi", guerreiro da Idade da Pedra encontrado em 1991 em uma geleira nos Alpes.
O degelo, por exemplo, ameaça vestígios de kurgans, tumbas da época dos Escitas, na Ásia Central, garantiu Henri-Paul Francfort, que chefia uma missão francesa nesta região para estudar os restos desta civilização nômade nas montanhas de Altai, na Sibéria.
"O permafrost, camada de terra constantemente gelada que os conservou até agora, derrete e ameaça decompor os corpos mumificados, tatuados, enterrados com cavalos sacrificados, peles, objetos de madeira, vestuário", explicou este especialista.
"Se não nos anteciparmos, logo será muito tarde", alertou o arqueólogo, que confirmou um degelo muito importante no Ártico em 2010. O aquecimento, entretanto, pode ter o efeito contrário. No Tirol italiano, "é, sem dúvida, a retração de uma geleira que permitiu descobrir um dia o Oetzi, um guerreiro de 5.300 anos atrás. O derretimento das geleiras, especialmente na Noruega, frequentemente traz à tona outros vestígios", justificou.
Outro motivo de inquietação é o aumento do nível dos mares. Segundo os últimos dados dos cientistas, o nível da água subirá um metro até 2100, ameaçando regiões costeiras inteiras.
"A elevação das águas em certas ilhas do Pacífico provocará inevitavelmente a destruição dessas zonas costeiras. Na Tanzânia, a erosão marítima destruiu um muro do forte de Kilma, construído pelos portugueses em 1505", relatou Francfort. Em Bangladesh, a cidade de Panam-Sonargaon, centro do reino de Bengala do século XV ao XIX e um dos 100 locais ameaçados pela Unesco, é frequentemente inundada pela elevação do nível das águas.
A multiplicação de fenômenos climáticos extremos, "especialmente os ciclones com cargas de água excepcionais que caem em tempo recorde", preocupa também os arqueólogos, segundo Dominique Michelet, especialista francês em arqueologia da América.
Michelet citou os casos de Chan Chan, do antigo reino chimú, e a maior cidade da América pré-colombiana (Peru), castigada pelas inundações provocadas pelo fenômeno El Niño, e o do templo maia de Tabasqueno (México), destruído pelos furacões Opalo e Rozana em 1995, mas restaurado posteriormente. "Os arqueólogos estabilizaram o templo principal, mas os edifícios encheram de água e implodiram", explicou.
Vincent Charpentier, no Instituto Francês de Pesquisas Arqueológicas Preventivas (INRAP), especialista em zonas costeiras, confirmou esta ameaça. "No sultanato de Omã, os ciclones Gonu, em 2007, e Phet, no verão passado (do hemisfério norte), enterraram na areia locais de 5.000 a 6.000 anos antes de nossa era", contou. A areia é um dos piores inimigos dos vestígios antigos, especialmente nos desertos. No Sudão, as dunas que rodeavam a cidade de Meroe, capital do reino de Nubia (do século III a.C ao IV d.C), atacaram as pirâmides e as enterraram.
Michelet jugou "indispensável um trabalho de alerta que deve ir além de um inventário dos locais ameaçados catalogado pela Unesco".


sábado, 4 de dezembro de 2010

De volta a 1967


De volta a 67, é um documentário aborda a final do conturbado III Festival da Record.


Quase 43 anos depois daquela noite de 30 de outubro de 1967, é curioso como a final do III Festival da Record ainda repercute na cultura brasileira. O documentário “Uma noite em 67” de Renato Terra e Rodrigo Calil, investiga o que estava por trás da competição entre as seis músicas finalistas da competição, ocorrida no fervor da ditadura militar no país. Para Nelson Motta, crítico musical e jornalista entrevistado no filme, “é naquele momento que explode o tropicalismo, que racha a MPB, que Caetano e Gil se tornam ídolos instantâneos, que se confrontam as diversas correntes musicais e políticas da época”.
Naquele momento, “Ponteio” (Edu Lobo), “Roda Viva” (Chico Buarque), “Domingo no Parque” (Gilberto Gil), “Alegria, alegria” (Caetano Veloso), “Maria, Carnaval e Cinzas” (Roberto Carlos) e “Beto Bom de Bola” (Sérgio Ricardo) representavam os embates políticos que eram travados na cena cultural, entre a juventude engajada, a liberação dos costumes e a despolitização acentuada com a consolidação da cultura de massas.
Era música “jovem” e a música “brasileira”. A questão era: porque não uma “música jovem brasileira”?Com um formato simples - entrevistas e imagens de arquivo - o documentário acerta ao ter uma proposta objetiva: retratar um acontecimento dentro de seu contexto histórico.
O diretor Ricardo Calil lembra o conselho de João Moreira Salles, produtor do filme pela Videofilmes : "se você quer fazer um filme sobre os Correios, você faz o filme sobre uma carta".Graças à parceria com a Record Entrenimento, o filme traz cenas das entrevistas nos bastidores e as apresentações na íntegra e remasterizadas, transformando a sala de cinema no teatro Record daquela noite.
É de se observar, no entanto, que apesar daquele festival envolver nomes como a apresentadora Cidinha Campos, a cantora Maria Medalha (intérprete junto a Edu Lobo na música vencedora "Ponteio"), Elis Regina e Nara Leão - que, embora não tenham se apresentado naquela final, foram importantes nomes da música brasileira-, nenhuma mulher é entrevistada no filme.
O filme leva o espectador de volta a década de 1960, quandoa Guerra Fria trazia o embate entre o modelo capitalista e o socialista e, acreditando-se próxima a um governo de esquerda, as bandeiras da juventude ganhavam ares de “revolução”. A chegada da ditadura militar em 64 foi um balde de água fria para os militantes que depositaram suas esperanças em ver o “povo” no poder.
Por um lado, a repressão do governo fez calar aqueles que atrapalhavam os interesses do regime e, por outro, possibilitou a consolidação no país de uma indústria cultural nos moldes norte-americanos.
Enquanto Roberto Carlos e a Jovem Guarda embalavam as tardes de domingo de grande parte da juventude daquela época, artistas considerados engajados, como Geraldo Vandré, Chico Buarque e Edu Lobo, intensificavam o processo de nacionalização e politização na chamada música popular.
Porém, se alguns consideravam qualquer influência cultural estrangeira uma ameaça à resistência ao regime militas, os baianos mostraram no Rio de Janeiro que a sociedade poderia ser um pouco mais complexa, misturando berimbau com guitarras elétricas e propondo um estilo musical que deu novos rumos à música brasileira naquele momento.
Sem grandes pretensões de ser um marco “político, musical, histórico, transcendental”, segundo o diretor da Record Paulinho Machado de Carvalho, e tomar a proporção que tomou, os festivais tinham naquela época um papel semelhante ao da novela nos dias de hoje. Com a chegada da televisão no país, o conteúdo do rádio começava a migrar para o formato audiovisual e os festivais se tornaram importantes vitrines para músicos como Elis Regina, Jair Rodrigues, Tim Maia, Nara Leão, entre muitos outros.
No filme, Paulinho Machado conta que sua preocupação era “fazer o festival dar certo, em termos de produção”, em meio a ânimos tão exaltados. Entre as pérolas do festival (e do filme), está a cena em que Sérgio Ricardo, revoltado com as vaias que o impediam de cantar, quebra o violão no palco e o atira na platéia, sendo desclassificado em seguida. As vaias tinham cadeira cativa nas apresentações.
Para a jornalista Ana Paula Sousa, da Folha de São Paulo, era um Brasil que, “calado pela ditadura, parecia disposto a vaiar quem quer que fosse, de Roberto Carlos a Caetano Veloso”. As disputas políticas em torno da música popular brasileira eram refletidas no palco e principalmente na plateia organizada, que dava ares de final de Copa do Mundo à competição.
A própria organização do festival e a seleção dos finalistas lembrava ringues de batalha entre “personagens”: Chico Buarque, o mocinho; Roberto Carlos, o galã; Edu Lobo, o politizado; Caetano e Gil, os baderneiros. Zuza Homem de Mello, técnico de som da Record no festival e consultor do filme, conta que “a plateia estava a fim de destruir as músicas de que não gostava, muitas vezes por razões políticas.
Era um tipo de fanatismo que nunca tínhamos visto em um festival”.Nos dias de hoje, sem iminência da repressão militar e com novela de sobra na televisão, ouvimos muitas vezes o discurso de que “não se faz mais política e cultura como antigamente”. No entanto, com as possibilidades de produção e circulação cultural ampliadas pelas novas tecnologias, observa-se o contrário: uma enorme proliferação de artistas independentes, por vezes não menos qualificados, realizando seus trabalhos sem espaço na mídia comercial, que ainda mantém formatos semelhantes aos de quarenta anos atrás.
É preciso atualizar também os conceitos de cultura e política para enxergar as novas formas de organização da juventude. Como propõe Gilberto Gil em entrevista no filme, é preciso “misturar as sementes para ver no que dá”.Formada em Estudos de Midia pela UFF e mestranda em "Indústrias Criativas: web, midia e artes" pela Universidade Paris VIII, Aline Carvalho é autora do livro Produção de Cultura no Brasil: Da Tropicália aos Pontos de Cultura. Documentário aborda a final do conturbado III Festival da Record.


quarta-feira, 24 de novembro de 2010

As 10 estratégias de manipulação midiática


O linguista Noam Chomsky* elaborou a lista das "10 estratégias de manipulação" através da mídia

Tradução: Adital

1 - A estratégia da distração
O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundação de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir que o público se interesse pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. "Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado; sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja com outros animais". (citação do texto "Armas silenciosas para guerras tranquilas")
2 - Criar problemas e depois oferecer soluções
Esse método também é denominado "problema-reação-solução". Cria-se um problema, uma "situação" prevista para causar certa reação no público a fim de que este seja o mandante das medidas que desejam que sejam aceitas. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou intensifique a violênca urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o demandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para forçar a aceitação, como um mal menor, do retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.
3 - A estratégia da gradualidade
Para fazer com que uma medida inaceitável passe a ser aceita basta aplicá-la gradualmente, a conta-gotas, por anos consecutivos. Dessa maneira, condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990. Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que teriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.
4 - A estratégia de diferir
Outra maneira de forçar a aceitação de uma decisão impopular é a de apresentá-la como "dolorosa e desnecessária", obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aceitação futura. É mais fácil aceitar um sacríficio futuro do que um sacríficio imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Logo, porque o público, a massa tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que "tudo irá melhorar amanhã" e que o sacríficio exigido poderá ser evitado. Isso dá mais tempo ao público para acostumar-se à ideia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.
5 - Dirigir-se ao público como se fossem menores de idade
A maior parte da publicidade dirigida ao grande público utiliza discursos, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade mental, como se o espectador fosse uma pessoa menor de idade ou portador de distúrbios mentais. Quanto mais tentam enganar o espectador, mais tendem a adotar um tom infantilizante. Por que? "Aí alguém se dirige a uma pessoa como se ela tivesse 12 anos ou menos, em razão da sugestionabilidade, então, provavelmente, ela terá uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico". (ver "Armas silenciosas para guerras tranquilas")
6 - Utilizar o aspecto emocional mais do que a reflexão
Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional e, finalmente, ao sentido crítico dos indivíduos. Por outro lado, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar ideias, desejos, medos e temores, compulsões ou induzir comportamentos.
7 - Manter o público na ignorância e na mediocridade
Fazer com que o público seja incapaz de copreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. "A qualidade da educação dada às classes sociais menos favorecidas deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que planeja entre as classes menos favorecidas e as classes mais favorecidas seja e permaneça impossível de alcançar". (ver "Armas silenciosas para guerras tranquilas")
8 - Estimular o público a ser complacente com a mediocridade
Levar o público a crer que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto.
9 - Reforçar a autoculpabilidade
Fazer as pessoas acreditarem que são culpadas por sua própria desgraça, devido à pouca inteligência, por falta de capacidade ou de esforços. Assim, em vez de rebelar-se contra o sistema econômico, o indivíduo se autodesvalida e se culpa, o que gera um estado depressivo, cujo um dos efeitos é a inibição de sua ação. E sem ação, não há revolução!
10 - Conhecer os indivíduos melhor do que eles mesmos se conhecem
No transcurso dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência gerou uma brecha crescente entre os conhecimentos do público e os possuídos e utilizados pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o "sistema" tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto no aspecto físico quanto no psicológico. O sistema conseguiu conhecer melhor o indivíduo comum do que ele a si mesmo. Isso significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos, maior do que o dos indivíduos sobre si mesmos.* Linguista, filósofo e ativista político estadunidense. Professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts


Fonte: Adital


segunda-feira, 23 de novembro de 2009

UMA AULA SOBRE REFRIGERANTE


Na verdade, a fórmula 'secreta' da Coca-Cola se desvenda em 18 segundos em qualquer espectrômetro-ótico, e basicamente até os cachorros a conhecem. Só que não dá para fabricar igual, a não ser que você tenha uns 10 bilhões de dólares para brigar com a Coca-Cola na justiça, porque eles vão cair matando.
A fórmula da Pepsi tem uma diferença básica da Coca-Cola e é proposital exatamente para evitar processo judicial. Não é diferente porque não conseguiram fazer igual não, é de propósito, mas próximo o suficiente para atrair o consumidor da Coca-Cola que quer um gostinho diferente com menos sal e açúcar.
Entre outras coisas, fui eu quem teve que aprender tudo sobre refrigerante gaseificado para produzir o guaraná Golly aqui (nos EUA), que usa o concentrado Brahma. Está no mercado até hoje, mas falhou terrivelmente em estratégia promocional e vende só para o mercado local, tudo isso devido à cabeça dura de alguns diretores.
Tive que aprender química, entender tudo sobre componentes de refrigerantes, conservantes, sais, ácidos, cafeína, enlatamento, produção de label de lata, permissões, aprovações e muito etc... e tal. Montei um mini-laboratório de análise de produto, equipamento até para analisar quantidade de sólidos, etc... Até desenvolvi programas para PC para cálculo da fórmula com base nos volumes e tipo de envasamento (plástico ou alumínio), pois isso muda os valores e o sabor. Tivemos até equipe de competição em stock-car.
Tire a imensa quantidade de sal que a Coca-Cola usa (50mg de sódio na lata) e você verá que a Coca-Cola fica igualzinha a qualquer outro refrigerante sem-vergonha e porcaria, adocicado e enjoado. É exatamente o Cloreto de Sódio em exagero (que eles dizem ser ' very low sodium') que refresca e ao mesmo tempo dá sede em dobro, pedindo outro refrigerante, e não enjoa porque o tal sal mata literalmente a sensibilidade ao doce, que também tem de montão: 39 gramas de 'açúcar' (sacarose).
É ridículo, dos 350 gramas de produto líquido, mais de 10% é açúcar. Imagine numa lata de Coca-Cola, mais de 1 centímetro e meio da lata é açúcar puro... Isso dá aproximadamente umas 3 colheres de sopa CHEIAS DE AÇÚCAR POR LATA!

- Fórmula da Coca-Cola?...

Simples: Concentrado de Açúcar queimado - Caramelo - para dar cor escura e gosto; ácido ortofosfórico (azedinho); sacarose - açúcar (HFCS - High Fructose Corn Syrup - açúcar líquido da frutose do milho); extrato da folha da planta COCA (África e Índia) e poucos outros aromatizantes naturais de outras plantas, cafeína, e conservante que pode ser Benzoato de Sódio ou Benzoato de Potássio, Dióxido de carbono de montão para fritar a língua quando você a toma e junto com o sal dar a sensação de refrigeração.
O uso de ácido ortofosfórico e não o ácido cítrico como todos os outros usam, é para dar a sensação de dentes e boca limpa ao beber, o fosfórico literalmente frita tudo e em quantidade pode até causar decapamento do esmalte dos dentes, coisa que o cítrico ataca com muito menor violência, pois o artofosfórico 'chupa' todo o cálcio do organismo, podendo causar até osteoporose, sem contar o comprometimento na formação dos ossos e dentes das crianças em idade de formação óssea, dos 2 aos 14 anos. Tente comprar ácido fosfórico para ver as mil recomendações de segurança e manuseio (queima o cristalino do olho, queima a pele, etc...).
Só como informação geral, é proibido usar ácido fosfórico em qualquer outro refrigerante, só a Coca-Cola tem permissão... (claro, se tirar, a Coca-Cola ficará com gosto de sabão).
O extrato da coca e outras folhas quase não mudam nada no sabor, é mais efeito cosmético e mercadológico, assim como o guaraná, você não sente o gosto dele, nem cheiro, (o verdadeiro guaraná tem gosto amargo) ele está lá até porque legalmente tem que estar (questão de registro comercial), mas se tirar você nem nota diferença no gosto.
O gosto é dado basicamente pelas quantidades diferentes de açúcar, açúcar queimado, sais, ácidos e conservantes. Tem uma empresa química aqui em Bartow, sul de Orlando. Já visitei os caras inúmeras vezes e eles basicamente produzem aromatizantes e essências para sucos. Sais concentrados e essências o dia inteiro, caminhão atrás de caminhão! Eles produzem isso para fábricas de sorvete, refrigerantes, sucos, enlatados, até comida colorida e aromatizada.
Visitando a fábrica, pedi para ver o depósito de concentrados das frutas, que deveria ser imenso, cheio de reservatórios imensos de laranja, abacaxi, morango, e tantos outros (comentei). O sujeito olhou para mim, deu uma risadinha e me levou para visitar os depósitos imensos de corantes e mais de 50 tipos de componentes químicos. O refrigerante de laranja, o que menos tem é laranja; morango, até os gominhos que ficam em suspensão são feitos de goma (uma liga química que envolve um semipolímero). Abacaxi é um festival de ácidos e mais goma. Essência para sorvete de Abacate? Usam até peróxido de hidrogênio (água oxigenada) para dar aquela sensação de arrasto espumoso no céu da boca ao comer, típico do abacate.
O segundo refrigerante mais vendido aqui nos Estados Unidos é o Dr. Pepper, o mais antigo de todos, mais antigo que a própria Coca-Cola. Esse refrigerante era vendido obviamente sem refrigeração e sem gaseificação em mil oitocentos e pedrada, em garrafinhas com rolha como medicamento, nas carroças ambulantes que você vê em filmes do velho oeste americano. Além de tirar dor de barriga e unha encravada, também tirava mancha de ferrugem de cortina, além de ajudar a renovar a graxa dos eixos das carroças. Para quem não sabe, Dr. Pepper tem um sabor horrível, e é muito fácil de experimentar em casa: pegue GELOL spray, aquele que você usa quando leva um chute na canela, e dê um bom spray na boca! Esse é o gosto do tal famoso Dr. Pepper que vende muito por aqui.


- Refrigerante DIET.


Quer saber a quantidade de lixo que tem em refrigerante diet? Não uso nem para desentupir a pia, porque tenho pena da tubulação de PVC. Olha, só para abrir os olhos dos cegos: os produtos adocicantes diet têm vida muito curta. O aspartame, por exemplo, após 3 semanas de molhado passa a ter gosto de pano velho sujo.
Para evitar isso, soma-se uma infinidade de outros químicos, um para esticar a vida do aspartame, outro para dar buffer (arredondar) o gosto do segundo químico, outro para neutralizar a cor dos dois químicos juntos que deixam o líquido turvo, outro para manter o terceiro químico em suspensão, senão o fundo do refrigerante fica escuro, outro para evitar cristalização do aspartame, outro para realçar, dar 'edge' no ácido cítrico ou fosfórico que acaba sofrendo pela influência dos 4 produtos químicos iniciais, e assim vai... A lista é enorme.
Depois de toda essa minha experiência com produção e estudo de refrigerantes, posso afirmar: Sabe qual é o melhor refrigerante? Água filtrada, de preferência duplamente filtrada, laranja ou limão espremido e gelo... Mais nada !!! Nem açúcar, nem sal.

(AUTOR: ANÔNIMO - por motivos óbvios).