Félix: Brasil tem que se acostumar "com sacos de corpos" voltando da guerra.
A frase acima foi proferida pelo ministro do Gabinete de Segurança Institucional, general Jorge Armando Félix, para explicar que o Brasil tem que "pagar um preço" se quer ser uma liderança mundial. Segundo o relato do embaixador Clifford Sobel, a conversa se deu em janeiro de 2007, como ele detalhou em um telegrama enviado ao Departamento de Estado às 16:40 do dia 15 de fevereiro de 2007, que será publicado hoje (15) pelo WikiLeaks.O telegrama secreto descreve um jantar oferecido pelo embaixador a Félix e ao Subchefe-Executivo do GSI, o General-de-Divisão Rubem Peixoto Alexandre.
Na pauta, o pedido da diplomacia para que Félix intermediasse um encontro entre a ministra-chefe da Casa Civil Dilma Rousseff e o advogado-geral americano - além da perspectiva do Brasil colaborar com a Otan, aliança militar que inclui países da Europa e os Estados Unidos. Preço a pagar"Félix estava relaxado e falando francamente, enquanto Alexandre permaneceu em silêncio durante a maior parte da noite", descreveu Sobel. Ele perguntou sobre os benefícios do Brasil colaborar militarmente com a Otan."Felix pareceu circunspecto e disse que os brasileiros devem encarar o fato de que 'um preço deve ser pago' para obter um papel de liderança global.
O Brasil deve estar disposto a modernizar e empregar suas forças em operações internacionais e confrontar a perspectiva de 'sacos de corpos' retornando ao Brasil. Félix disse que, tanto pessoalmente quanto como militar, ele acreditava que era chegada a hora do Brasil pagar o preço e assumir a posição de liderança no cenário global", narra o telegrama. O general diz ainda, segundo o documento, que uma cooperação próxima com a Otan seria vista positivamente pelos militares brasileiros, que compartilham a sua visão.Venezuela Durante o jantar o general também voltou a falar do seu desafeto Hugo Chávez.
Disse que o venezuelano tinha pouca influência no Brasil, recebendo sempre críticas negativas da imprensa, e que "enquanto os governos vizinhos forem democraticamente eleitos, o Brasil tentará ser compreensivo quanto às suas idiossincrasias políticas particulares".Felix, interlocutor frequente da embaixada, já tinha deixado clara suas diferenças com o governo em relação à Venezuela durante um almoço na residência do embaixador em 2005 - mas disse preferir se manter alinhado com a posição oficial.Ele também reclamou da designação da Região da Tríplice Fronteira como alvo do Hezbollah. Desde 2006 o governo americano menciona possíveis atividades terroristas na tríplice fronteira com o Paraguai e a Argentina em seu relatório anual.
Na Revolução de 1932, todo paulista foi identificado com os antigos desbravadores. Sua missão: provar a superioridade do estado e salvar o Brasil.
A figura do bandeirante paira como uma entidade sobre São Paulo: está nos monumentos, nos nomes de ruas e logradouros públicos, nas escolas, clubes e estabelecimentos comerciais. A Rodovia dos Bandeirantes une a capital a pontos do interior. A Raposo Tavares (tal como seu homenageado) leva ainda em direção às missões do Tape e Itatim, enquanto a Fernão Dias serpenteia como que à procura das minas de esmeralda e das montanhas das Gerais. Atravessa-se o poluído Tietê pela Ponte das Bandeiras.
Do modernista Monumento às Bandeiras no Ibirapuera, de Vítor Brecheret, à kitsch estátua de Borba Gato, na antiga Estrada de Santo Amaro, não lhes faltam louvações. As homenagens começaram ainda no século XVIII, quando cronistas como Frei Gaspar da Madre de Deus e Pedro Taques de Almeida Paes Leme enalteceram a figura do bandeirante e suas conquistas heróicas. O crescimento econômico da província viria na segunda metade do século XIX, com a expansão da produção cafeeira.
Mas essa transformação não provocou mudanças na esfera política. A elite paulista continuava à margem do poder decisório, centrado na capital do Império, o Rio de Janeiro. Por isso, ela aderiu ativamente ao movimento republicano, defendendo mais autonomia para os estados. As camadas dirigentes paulistas recorriam à história para justificar seu direito a uma maior participação política. Para eles, desde o início da colonização os habitantes de Piratininga tinham sido responsáveis pela ampliação do território nacional, enriquecendo a metrópole com o ouro que encontraram em regiões distantes do litoral e levando a civilização para os mais longínquos rincões da América, transformados por eles em possessão portuguesa.
Graças à integração territorial que promoveram, os bandeirantes eram tidos como fundadores da unidade nacional. Representavam, por um lado, a lealdade ao estado de São Paulo. Por outro, a lealdade ao Brasil.O advento da República (1889) também não trouxe para São Paulo o poder que suas lideranças desejavam conquistar. E elas continuaram investindo na valorização de seu passado. Historiadores do século XX, como Afonso d’ Escragnolle Taunay, Alfredo Ellis Jr. e Alcântara Machado, dedicaram-se a realçar diferentes aspectos das bandeiras. Taunay seguiu o roteiro das expedições pelo território, Ellis Jr. apontou o surgimento de um povo superior (a raça Planaltina) e Alcântara Machado estudou as condições econômicas e sociais do século XVI.
Mas a oportunidade para o bandeirante emergir como verdadeiro símbolo capaz de solucionar os conflitos que desafiavam a nação surgiu na crise da virada dos anos 1930. O movimento militar de 1930, liderado por Minas e Rio Grande do Sul, derrubou o presidente Washington Luis, representante da oligarquia paulista, e alçou ao poder Getúlio Vargas. Contrariados, grupos políticos de São Paulo formaram a Frente Única, apelando para a luta armada pela volta ao regime constitucionalista. Em 9 de julho de 1932, lançaram-se em combates para a derrubada do governo Vargas.
Para convencer a sociedade de que desafiava a ditadura em nome da unidade nacional, nada melhor do que resgatar o velho mito. Os bandeirantes voltam ao centro dos discursos políticos. Com suas virtudes já consolidadas — coragem, audácia, honradez e rigor moral — um símbolo capaz de congregar o povo paulista. No recrutamento dos cidadãos para pegar em armas, convinha omitir a divisão de classes e os interesses de grupos. Uma causa maior se levantava, e ela tinha o irresistível apelo de um herói histórico.Na Faculdade de Direito, os alto-falantes convocavam para o combate, bradando: “São Paulo de Borba Gato, São Paulo de Anhanguera...”. Generalizações eram bem-vindas na chamada à luta: Nação, Nacionalidade, Civilização, Liberdade, Tradições Paulistas.
Durante o movimento, foi cunhada a expressão “paulista de quatrocentos anos”, pela qual as famílias mais antigas cultuavam sua ancestralidade e acreditavam pertencer a uma raça privilegiada. Mas para a guerra era preciso estender o privilégio aos imigrantes, negros e índios. Afinal, dos 7 milhões de habitantes que então povoavam São Paulo, menos da metade podia se orgulhar de descender dos colonizadores. A partir daquele momento, por paulista não se entendia mais somente o indivíduo nascido e criado no estado, mas todo aquele que para lá se transferiu, que se fixou em suas terras, que lá vivia e trabalhava.
Bandeirantes eram todos os que dispunham a lutar pelo estado e pelo Brasil, todos os que pudessem contribuir para a vitória. Era preciso tirar o país da ilusão ditatorial e fazer com que a nação brasileira trilhasse novamente os caminhos da democracia. A mesma alma altiva de Piratininga depositava ante o Brasil seu ouro, seu heroísmo e o sangue dos seus filhos. O hino “Ser Paulista”, de autoria do sargento B. João Pedroso, foi um dos muitos compostos durante a guerra: “Para frente Paulistas/ valorosos Bandeirantes/ Que dos tempos passados/ Têm conquistas/ E feitos brilhantes”.
O paulista em 1932 era como o sertanista do século XVII, que enriqueceu a monarquia portuguesa. Agora, ele doava seu “ouro para o bem de São Paulo”. Era o que afirmava o “Jornal das Trincheiras”, fartamente distribuído nas áreas de combate e no Rio de Janeiro. Ao narrar a epopéia de um célebre bandeirante, no artigo “Estirpe do Anhangüera”, o jornal declara que a “chama da civilização” agora era levada adiante pelo soldado constitucionalista.Um dos exemplos mais expressivos dessa campanha está no expediente do jornal “O Separatista”, apresentado assim: "Diretor: Fernão Dias Paes Leme. Redator Chefe: Antônio Raposo Tavares. Secretário Geral: Cap. Luís Pedroso de Barros”.
A Revolução de 1932 também não dispensou a força das imagens. Bandeirantes ilustravam toda uma sorte de papéis avulsos, volantes, cartazes, cartões e até partituras musicais que convocavam à luta. Ora apareciam empunhando a bandeira de São Paulo, ora acenando aos jovens, ora segurando a caricatura de Getúlio Vargas, como a esmagá-lo. O olhar firme e o porte sereno refletiam a bravura do sertanista, sempre vestido com os trajes com os quais os artistas da época o tinham representado: botas de cano alto, gibão, colete e, infalivelmente, o chapelão de abas largas que emoldurava um rosto barbado e de cabelos longos.
No poema “Minha terra, minha pobre terra”, Ibrahim Nobre, um dos mais conhecidos tribunos da Revolução, expressa com clareza a imagem que os paulistas tinham de si mesmos, desde que os primórdios da colonização:Terra Paulista! Da tua carne massapé e honesta, do teu ventre de mãe fecundo e são, veio a alma que realizou a nacionalidade, imprimindo-lhe o sentido da Independência e os rumos católicos da civilização. De ti proveio o Homem que confrontou a natureza peito a peito e que a venceu e a dominou a facão e a fé!A guerra culminou com a derrota paulista, em 28 de setembro de 1932.
Mas o mito não morreu. O imaginário do bandeirante torna heróico o cotidiano duro do homem de São Paulo e constrói uma identidade ao mesmo tempo coletiva e individual. O paulista se alimenta dessa mitologia para elaborar sua própria imagem, criando uma alegoria de igualdade, se não física, pelo menos moral, que acaba disfarçando os conflitos de classe. Em São Paulo, todos são herdeiros dos desbravadores do sertão.
Katia Maria Abud é professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo e autora da tese O sangue intimorato e as nobilíssimas tradições: a construção de um símbolo paulista: o bandeirante (FFLCH-USP, 1986)
Saiba Mais - Bibliografia:BORGES, Vavy Pacheco. Memória Paulista. São Paulo, Edusp, 1997.
PAULA, Jeziel De. 1932 Imagens Construindo a História. Campinas, Editora da UNICAMP/Piracicaba, Editora da Unimep, 1998.
QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. Ufanismo paulista: vicissitudes de um imaginário. Revista USP, 13: p. 79-87; mar-abr-mai 1992.
Fruto exótico em sua origem africana, o café se tornou um produto cobiçado, sinônimo de luxo e elegância
Escrito por: Ana Luiza Martins
“Segure uma xícara exalando o aroma de um bom café e você estará com a História em suas mãos!” Não há exagero neste ditado. Um simples gole dessa bebida estimulante nos leva a uma imensa cadeia de produção, embalada em muita aventura e ousadia, e ao exotismo do Oriente. O conteúdo renovador desta infusão transformou-a na segunda bebida mais consumida no mundo, só perdendo para a água.
Sua trajetória do Oriente para o Ocidente é narrada por meio de histórias fantásticas, disputas ferrenhas, consagrando a bebida como um dos motores da sociedade moderna. O milenar percurso de suas sementes, que atravessaram continentes e mares, faz lembrar o lugar onde tudo começou. A fruta vermelha que nasce da flor branca do pé de café foi descoberta por volta do ano de 525 no interior da Etiópia.
Já a primeira referência alusiva ao uso comestível do café está em manuscritos do Iêmen, de 575, que revelam a Lenda de Kaldi. Reza a lenda que um pastor de cabras da Etiópia observou o efeito excitante que as folhas e os frutos de determinado arbusto produziam em seu rebanho. Os animais que mastigavam a planta subiam as montanhas com agilidade e apresentavam mais resistência. Kaldi experimentou seus frutos, confirmando os dotes estimulantes, e seu consumo se disseminou pela região.
Os etíopes se alimentavam de sua polpa doce, por vezes macerada, ou misturada em banha, para refeição. E produziam um suco que, fermentado, se transformava em bebida alcoólica. As folhas também eram mastigadas ou utilizadas no preparo de chá. A infusão do fruto – quando se mergulha em água fervente uma substância para obter dela outra –, porém, ocorreria mais tarde, a partir do ano 1000, com as cerejas fervidas em água, para fins medicinais. Mas a bebida só adquiriu forma e gosto como a conhecemos hoje no século XIV, com a torrefação. (...)
A internet preserva parte importante da memória do futebol brasileiro. Renato Venâncio revela os vídeos e documentos guardados online sobre a grande paixão nacional.
A história do Brasil do século XX, em grande medida, é a história do futebol. O futebol contribuiu para auto-estima de nossa gente, além de possibilitar a ascensão social de milhares de brasileiros pobres. Mais ainda, o esporte bretão gerou a imagem do herói popular e da “pátria de chuteiras” – na expressão de Nelson Rodrigues – como responsabilidade de talentosos afrodescendentes, em uma sociedade que durante séculos foi escravocrata e racista.
Com certeza, porém, nem tudo são flores nos gramados futebolísticos. A maioria dos jogadores, tanto no passado quanto no presente, ganha salários miseráveis. Os que ascendem socialmente, e eventualmente se tornam milionários do dia para noite, são frequentemente extorquidos por uma corte parasitária, formada em grande parte pelas midiáticas marias-chuteiras. Além dessas mazelas, a história brasileira da corrupção administrativa, da exploração e da trapaça, em muito é tributária de expressiva parcela de dirigentes de clubes e de empresários do ramo futebolístico.
Para o bem ou para o mal, não há como negar que o futebol tem muita história para contar. Apesar disso, as ações para se preservar a memória do esporte ainda são raras. O Museu do Futebol desenvolve um trabalho pioneiro. As instituições arquivísticas propriamente ditas, aparentemente, ainda não recolhem arquivos pessoais de jogadores brasileiros. Essa memória documental - constituída por cartas, anotações, fotografias, recortes de jornais etc -, salvo para um ou outro caso, em grande parte foi perdida.
Coisa de índio, escravo ou marginal, a tatuagem teve que romper fronteiras sociais para conquistar a juventude dourada brasileira
Nenhuma nação desconheceu a tatuagem. Encorajada aqui, proibida acolá, ela independe de geografia, classe ou calendário e é tão antiga quanto a própria humanidade. Nasce e renasce em todos os continentes de modo espontâneo, ao sabor dos grandes deslocamentos humanos, seguindo (e escrevendo) a História de vencedores e de vencidos, dos reis e dos súditos, dos inuits do gelado Ártico aos marinheiros de Santos.
Não se sabe ao certo quando chegou por estas bandas, mas viajantes estrangeiros já se surpreendiam com as marcas pigmentadas na pele dos índios. Em 1512, Henri Estienne, um explorador francês, ficou impressionado com os rostos dos nativos, decorados com cicatrizes azuladas. Algumas iam das orelhas ao queixo. Quando cruzou o Atlântico de volta para casa, levou alguns índios consigo e os exibiu na corte francesa. Hoje se sabe que a prática era amplamente utilizada. Dos mundurucus (Amazonas, Mato Grosso e Pará) aos povos litorâneos, como os tabajaras, nossos índios se tatuavam para denotar sua origem ou marcar momentos de passagens, como a puberdade, e mudanças de status, como a de menino para guerreiro ou a de inimigo para escravo. Eles usavam espinhos e outros instrumentos de corte, como dentes de animais e diamantes. E o principal pigmento vinha do jenipapo. Nada muito sofisticado: em geral, as marcas se restringiam a desenhos geométricos rudes, distantes da intrincada elaboração da tatuagem das Ilhas Marquesas, na Polinésia Francesa, onde os homens eram totalmente “decorados” da cabeça aos pés.
As cicatrizes intencionais dos escravos – também chamadas de escarificação – eram outra marca corporal impressionante para os estrangeiros. “Fazem pôr por enfeite e sinal nas suas faces muitos lanhos, (...) indicativos da família, do Reino, do Presídio e do lugar onde nasceram”, descreveu, em 1793, o português Oliveira Mendes em Memória a respeito dos escravos e tráfico de escravatura entre a Costa d’África e o Brasil. Outro europeu a mencionar as escarificações dos negros escravos foi o historiador francês Ferdinand Denis (1798-1890). Ao circular pela Rua da Alfândega, no Rio de Janeiro da primeira metade do século XIX, afirmou que era chocante ver os negros seminus na rua, com suas “tatuagens bizarras, que servem de pronto para reconhecer as suas nações”. Denis se referia às cicatrizes intencionais, mas já emprega, em francês, a palavra “tatuagem”.
O termo passou a ser adotado depois que o inglês James Cook conheceu in loco a sofisticada tradição desenvolvida na Polinésia, em fins do século XVIII. Lá, os nativos usavam espinhas de peixe finíssimas, ou ossos de passarinho, para perfurar a pele e injetar um pigmento feito à base de carvão e ferrugem. O navegador registrou o costume em seu diário de bordo: “Homens e mulheres pintam o corpo. Na língua deles, chamam isso de tatau. Injetam pigmento preto sob a pele de tal modo que o traço se torna indelével”. A palavra taitiana era uma onomatopéia do som feito durante a execução da tatuagem. Veio daí a versão em inglês: tattoo.
O nome pegou e a prática se espalhou com os lobos-do-mar ingleses pelos sete mares. No século XIX, a tatuagem tinha virado moda entre marinheiros, operários, prostitutas e criminosos de todo tipo. No Brasil não foi diferente. Com a abertura dos nossos portos, a tatuagem alcançou o submundo. As descrições dessa prática marginal estão presentes em livros de médicos e criminalistas, e em crônicas jornalísticas do século XX. Em “Tatuagem e criminalidade”, tese apresentada na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1912, José Ignacio de Carvalho enumerava as tatuagens de presos da Casa de Detenção. Nomes, iniciais e emblemas de amor predominavam nos 994 tatuados que encontrou em um universo de 6.542 detentos. Os tatuados eram padeiros, baleiros, pedreiros, marítimos, cocheiros, domésticos e alfaiates, o que levou o autor à seguinte conclusão: “O indivíduo tatuado pertence, em geral, a uma classe inferior, estranha aos progressos da civilização”.
Essa era a visão corrente. Por conta da chamada antropologia criminal, surgida a partir da segunda metade do século XIX, as conotações pejorativas haviam se cristalizado na Europa católica. Da Itália até Portugal, tatuagem era coisa de cidadão de segunda classe. O mesmo não acontecia nos países protestantes, como Alemanha, Holanda e Inglaterra, onde reis, imperadores e aristocratas também adornavam suas peles. Era a marca do conquistador branco. O pai da moda foi o rei britânico Eduardo VII (1841-1910). Ainda príncipe, tatuou-se nas viagens de instrução, etapa necessária da educação militar do aspirante ao trono. O monarca fez tatuagens em Jerusalém e no Japão, as grandes mecas da prática na virada para o século XX. Depois de Eduardo VII, outros nobres adotaram o costume. Foi o caso de Frederico IX (1899-1972). Fotografias famosas mostram o rei da Dinamarca sem camisa, ostentando orgulhosamente tatuagens marinheiras e de emblemas de seu país.
Não se sabe ao certo se a elite brasileira conheceu o costume ou se teve interesse e meios de adotá-lo. Por aqui a tatuagem permanecia marginal no início do século passado, feita pelos próprios tatuados e por tatuadores amadores – a maioria deles estrangeiros de passagem pelo Brasil na condição de marinheiros. A situação só mudaria com a máquina de tatuar, patenteada pelo inglês Samuel O’ Reilly em 1891, mas que só chegaria deste lado do Atlântico no século seguinte.
O grande pioneiro da tatuagem no Brasil foi um ex-marinheiro dinamarquês estabelecido em Santos. Knud Harld Likke Gregersen (1928-1983), o “Tattoo Lucky”, nasceu em Copenhague e tinha a tatuagem no sangue – seu pai, Jens, era um tatuador de renome internacional. O próprio Knud afirmou várias vezes que sua infância e juventude se passaram no ateliê da família. Depois de anos levando a vida de marinheiro, desembarcou de vez no porto de Santos em 20 de julho de 1959. O Arquivo Nacional ainda conserva sua ficha de registro: ao se apresentar às autoridades, declarou-se desenhista e pintor. Seis meses depois, já estampava jornais e revistas. No dia 7 de janeiro de 1960, foi tema de matéria da Folha de S. Paulo.
A fama nacional de Tattoo Lucky, contudo, só veio nos anos 1970 e se deve a toda uma nova conjuntura. A tatuagem estava em alta nos Estados Unidos, mais especificamente em São Francisco, Califórnia. Lá se tatuaram ícones pop como Janis Joplin, Peter Fonda e Joan Baez, o que criou as condições para a contaminação da juventude consumidora de modas. Foi assim que ela renasceu por aqui. Quem levantou o dinamarquês tatuador foram os surfistas. Jovens praticantes do esporte passaram a viajar para Santos à procura do famoso Tattoo Lucky. Uns queriam dragões e panteras, outros preferiam flores, cogumelos ou pequenos símbolos da onda hippie.
Foram os surfistas os anfitriões da tatuagem no meio da classe média urbana. E a passagem da marginalidade para a consagração se deu em grande estilo: na voz de Caetano Veloso. Em 1979, o baiano cantava logo na primeira estrofe: “Menino do Rio/ Calor que provoca arrepio/ Dragão tatuado no braço/ Calção corpo aberto no espaço/ Coração, de eterno flerte/ Adoro ver-te...”. “Menino do Rio” era uma homenagem ao surfista José Artur Machado, o Petit, cliente de Tattoo Lucky e dono de um enorme dragão no braço esquerdo. Os versos chancelavam a sensualidade da tatuagem. Séculos de marginalidade – dos índios, escravos e pobres – viraram pó com aquela canção. A música foi tema de novela da TV Globo (“Água Viva”, 1980) e batizou um filme, dirigido por Antônio Calmon em 1981, que fez sucesso entre os jovens.
O terreno estava preparado: na onda da contracultura e embalada pelos meios de comunicação, a tatuagem enfim virou moda entre nós. De uma hora para outra, os filhos da ditadura militar quiseram se tornar meninos e meninas do Rio. O mercado nasceu e se expandiu com uma velocidade impressionante. Lojas de tatuagem começaram a ser abertas no Rio, em São Paulo, em Salvador e em outras capitais. Seus donos? Aquela mesma juventude que se encantou com as tatuagens que via ao vivo ou na mídia nas décadas de 1960 e 70. Agora estavam com a máquina e a tinta nas mãos. O resultado está aí, estampado na pele.
Toni Marques é jornalista, editor do programa Fantástico (TV GLOBO), e autor de O Brasil tatuado e outros mundos (Rocco, 1997).
Saiba Mais - Bibliografia:
ARAUJO, LEUSA. Tatuagem, piercing e outras mensagens do corpo. São Paulo: Cosac & Naify, 2006.
LOPES, Moacir. Maria de cada porto. Rio de Janeiro: Quartet Editora, 2002.
PERRONE-MOISÉS, Leyla. Vinte luas – Viagem de Paulmier de Gonneville ao Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
Cantada em rodas de samba desde 1917, composição de João da Baiana critica as injustiças sofridas por negros nos primeiros anos da República
Batuque na cozinha Sinhá não quer, por causa do batuque eu queimei meu pé
Quem gosta de samba já escutou este refrão de “Batuque na cozinha”, composto por João da Baiana (1887-1974) em 1917, e só gravado em 1968. E provavelmente acompanhou os versos batucando numa mesa ou remexendo as cadeiras. Mas por trás do ritmo contagiante há palavras que dizem mais do que aparentam. Com suas composições, o músico carioca também aproveitava para esboçar críticas ferinas ao regime republicano, naquele momento firmemente empenhado em perseguir a população afro-brasileira.
Seguindo uma estrutura tradicional, a música continha apenas um refrão, em torno do qual se improvisavam novos versos. O tema era lançado na roda e cada um fazia seu comentário ou jogava uma provocação. Por força da tradição, muitos refrões eram transmitidos de geração a geração, atravessando séculos. É bem provável que João da Baiana tenha escutado o tema que inspirou seu batuque em uma das inúmeras festas que frequentou desde criança. (...)
Cemitérios de São Paulo viram pontos turísticos e são registrados em livro.
A terra da garoa tem muitos museus, mas poucos turistas conseguem visitar em um só lugar referências a Tarsila do Amaral, Campos Sales, Monteiro Lobato e marquesa de Santos. Para isso, é preciso deixar o medo de lado. Afinal, não é qualquer um que mantém a calma ao entrar em um cemitério. A partir de 2011, a chance de alguém se perder entre os túmulos será menor. Isso porque será lançado um guia com roteiros pelas principais necrópoles paulistanas.
O livro Cemitérios e lugares da morte em São Paulo propõe passeios a pé, com mapas e setas indicando o percurso. Pode ser lido como um guia de turismo, mas com muito mais referências históricas. Segundo a editora Paula Janovitch, os roteiros relacionam os cemitérios com temas como arte e imigração. Já os “lugares da morte” seriam igrejas antigas, onde eram feitos os enterros até meados do século XIX. O primeiro cemitério público, chamado Consolação, só foi construído em 1858.
Para Eduardo Rezende, presidente da Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais (Abec) e dono da Editora Necrópolis, o Cemitério Consolação é o mais indicado tanto para se visitar a última morada de personalidades históricas como para apreciar a arte tumular. O mausoléu da família Matarazzo, com 20 metros de altura, é campeão de visitas. Outros eventos, digamos, inusitados aconteceram por ali. “Pagu e Oswald de Andrade se casaram, em 1930, em frente ao túmulo do pai dele”, afirma Rezende.
Perto do Consolação, os cemitérios Araçá e São Paulo completam o circuito turístico básico. No Araçá, segunda necrópole pública da cidade, está enterrada Francisca Júlia (1871-1920), uma das primeiras poetisas do país. A estátua que enfeita hoje o túmulo é uma cópia da original, em mármore carrara, esculpida por Victor Brecheret. A obra foi transferida em 2006 para a Pinacoteca de São Paulo.
Além de Brecheret, outros artistas de sangue italiano se destacaram na arte tumular. Segundo a historiadora Eloína Ribeiro, Eugênio Prati, Galileo Emendabili e Antello Del Debbio chegaram a montar ateliês em frente ao Cemitério São Paulo. Eles se mudaram para a cidade na década de 1920, quando foram construídos os primeiros grandes monumentos funerários. A maioria das obras era feita para imigrantes. “As esculturas geralmente mostram que eles tiveram sucesso no Brasil, tornando-se comerciantes e industriais”, diz a historiadora.
Eloína escreveu um dos roteiros sobre as necrópoles da cidade, mas se limitou ao Cemitério São Paulo. Ali está a maioria das obras feitas por ítalo-brasileiros, sua especialidade. Com ela, Paula e Rezende formam um time crescente de admiradores de “lugares da morte”. Apesar de ainda haver muito preconceito, eles garantem: quem vai a um cemitério sempre acaba voltando depois.